domingo, 12 de janeiro de 2014

HQ: Os Quadrinhos Foram Ocupados

Tudo é política. E nos quadrinhos não é diferente. Por mais que se tente manter o status quo, sempre somos levados a conhecer visões políticas alternativas.
Depois de movimentos tanto criticados como elogiados (como anarquia, fascismo, nazismo e contracultura) terem sido introduzidos no universo dos quadrinhos, chegou a vez do Movimento Occupy. A iniciativa ganhou o conhecimento mundial em 2011 com a manifestação Occupy Wall Street, na qual os participantes se vestiam com máscaras de Guy Fawkes, um dos responsáveis pela conspiração da pólvora do século XIX na Inglaterra e inspiração para o protagonista da série V de Vingança, criada em 1982 pelo Inglês Alan Moore.
Capa da publicação nº1 da Ocuppy Comics
Os manifestantes alegavam representar 99% da população, uma maioria esmagadora e insatisfeita que reclamava de temas importantes, como a desigualdade social, o abuso das corporações e a manipulação da mídia, entre outros. Segundo acreditavam, tais assuntos eram responsáveis pela precária situação financeira do outrora mais poderoso país do mundo. Simpatizantes ao redor do globo organizaram manifestações semelhantes reclamando de problemas locais, enquanto hackers seguidores da filosofia, chamados Anônimos, chegaram a fazer sérias ameaças aos governos, demonstrando seu poderio ao deixar sua marca nas páginas principais de vários sites governamentais e midiáticos.
Com o intuito de divulgar sua mensagem utilizando o mais popular dos meios, foi criada a Occupy Comics, uma antologia de quadrinhos que narra histórias baseadas na filosofia do movimento. O projeto, que ganhou o apoio de nomes de peso, como o próprio Alan Moore,Robert Kirkman (“The Walking Dead”) e Ben Templesmith (“30 Dias de Noite“), foi colocado na rede de Crowdfunfing Kickstarter, e a renda das vendas da antologia será revertida para o movimento. Para isso, foi criado o selo/editora Black Mask, que não só produzirá a revista como terá outros projetos paralelos que, apesar de aparentemente destoarem da filosofia, podem ser levados para outras mídias e assim captar mais dinheiro para os membros do Occupy.

Apesar da polêmica de alguns títulos e seus propósitos, a ideia de se implantar uma produção em quadrinhos coletiva voltada para o bem comum não só é atraente como um divisor de águas. Até então não se tinha notícia de outros quadrinhos que tenham manifestado tão claramente sua posição política. Além do mais, é provável que a premissa de ser algo ao mesmo tempo panfletário e rentável possa prolongar a vida do Occupy, que não só passará a ser autossustentável como terá um importante braço midiático.

Na quarta-feira passada, dia 23/05, a loja de quadrinhos nova-iorquinaForbidden Planet foi ocupada para o lançamento da revista, numa prova da alta receptividade dos leitores e da viabilidade da novidade que, se bem administrada, chegou pra ficar.


HQ: Carta aos fanboys Xiitas (ou: take a smile, boys)

Defina bom e ruim.

A mais nova adaptação do Superman para as telonas
Bom é o que satisfaz suas expectativas e ruim é o que não satisfaz, certo? E isso vale tanto para bens de consumo quanto para gostos. Levando-se em conta que lazer é um bem de consumo, consumidores insatisfeitos têm todo o direito de reclamar de seus investimentos, mas nem sempre de seus gostos.
Gosto é impessoal e intransferível. O que agrada a um desagrada a muitos e vice-versa.
Cinema é um lazer consumível que, volta e meia, tenta adaptar outras mídias para a sua linguagem.  Algumas vezes com sucesso, outras nem tanto. E o que diferencia um sucesso de um fracasso pode passar pelo gosto. Filmes são feitos com a linguagem de seu tempo e nem sempre com a intenção de agradar a grupos específicos. Filmes sobre quadrinhos, por exemplo, até tentam agradar leitores de quadrinhos, mas se eles fossem o único público alvo os estúdios já teriam desistido na primeira crítica.
A trilogia de Christopher Nolan deu novo rumo às adaptações de quadrinhos para o cinema
Os leitores crescem com os quadrinhos e muitas vezes chegam a mimetizar o código moral ou acreditam que suas vidas se assemelham a de seus personagens preferidos.  Escapismo ou transferência, a verdade é que por um longo período de suas vidas eles se sentem íntimos de seus heróis de papel. Sendo a intimidade uma forma de possessão, os fanboys mais radicais se manifestam contra alterações com uma fúria capaz de queimar qualquer filme já em seu lançamento.  O pior é que a maior parte dessas críticas é baseada no gosto pessoal, mas por elas terem sido proferidas pelos formadores de opinião de então, tem mais poder do que os comentários de quem viu e gostou; muitas vezes, a maioria.
Alguns estão certos, outros errados e muitos perdem a razão em suas reclamações, mas a verdade é que as adaptações transmídia precisam falar a linguagem do momento no qual são produzidas ou serão desastres de bilheteria. E nenhum estúdio quer perder dinheiro. Aliás, foi por isso que super-heróis ficaram quase uma década fora das telonas.
Homem de Ferro abriu um mundo de possibilidades à Marvel
Mas o que torna um filme um fracasso comercial independe da ira dos leitores de quadrinhos. A verdade é que muitos estúdios não entendem a força dos ícones da cultura pop e se esquecem de que boa parte destes personagens existe há pelo menos meio século. O Superman, por exemplo, completa 75 anos neste ano e foi presenteado com um novo longa que felizmente tem recebido boas críticas desde o seu lançamento lá fora. Levando-se em conta que, após a conclusão da trilogia Batman, o peso da continuidade do universo cinematográfico da DC Comicspairava tanto sobre os ombros de aço doKriptoniano quanto dos de seu criticado diretor humano, os fãs podem respirar aliviados, pois, aparentemente, esta será a melhor adaptação do personagem em 30 anos.
O universo Marvel, por sua vez, acertou bastante desde o primeiro “Homem de Ferro” e investiu em algo que os roteiristas pareciam ter esquecido até então: a caracterização. Você reconhece os personagens e seus dilemas básicos.  São atualizados para funcionar  em uma trama de duas horas? Sim, são. Infelizmente, algumas adaptações irritam os fãs deste ou daquele personagem, mas funcionam dentro da proposta e poucos realmente reclamam. Como já disse antes, não se pode agradar a todos (nem creio que seja esta a intenção), mas a verdade é que justamente por termos nerds de quadrinhos dentro dos estúdios, os personagens nunca foram tão bem adaptados quanto têm sido na última década.
"Estrada Para Perdição", uma excelente adaptação que de quebra levou um Oscar de Melhor Direção de Fotografia e outras 5 indicações
Existem adaptações ruins? Sim.
Podemos citar “X-Men Origens: Wolverine“, “Lanterna Verde“, “A Liga Extraordinária” e muitos outros que me vêm à cabeça neste momento. O ponto é que, salvo raras exceções, o público que paga pra ver um ícone da cultura pop e não conhece os quadrinhos do personagem gosta do que vê. Isso faz com que o estúdio tente acertar para abocanhar uma fatia maior de público, em uma tentativa que tem levado às telonas tanto blockbusters óbvios quanto filmes baseados em quadrinhos independentes, como “Estrada para a Perdição“, “Os Homens que não Amavam as Mulheres“, “Scott Pilgrim Contra o Mundo” e “Mundo Fantasma“, por exemplo.
"A Liga Extraordinária", um desperdício de ótimos personagens em uma péssima adaptação
Já repararam que todos ganham com isso? Após um longo inverno onde víamos adaptações de péssima qualidade que não agradavam nem mesmo ao público em geral, somos brindados não apenas com a excelência visual de “Os Vingadores“, cuja narrativa e caracterização estão muito bem amarradas, como ainda ganhamos de brinde histórias alternativas interessantes. Mesmo que ainda não tenham encontrado a fórmula de como agradar a Daleks e Romulanos (gregos e troianos, se preferir), adaptar quadrinhos voltou a ser um bom negócio para os estúdios agora.
Goste você ou não!
Os Vingadores das HQs e suas personificações nas telonas. Será que funcionou?

Críticas e cia Ltda

Eu não imaginei que voltaria ao assunto tão cedo, mas sempre me espanto com o quanto a cultura pop pode se tornar repetitiva.  E se é assim, quem sou eu pra reclamar?

Esta semana foram divulgadas três novidades “assassinas”: o novo Batman, o redesign do Lobo e o novo gibi do casal Supermaravilha. Resultado: ódio instantâneo. Goste você ou não, no mundo de Harry Potter e Crepúsculo os personagens precisam mudar (de novo) ou perdem a penetração.
É o caso do novo título Superman /Mulher-Maravilha, uma DR mensal de 22 páginas. Os dois estão namorando, e coisas assim são inevitáveis, certo? Quando o desenhista Tony Daniel comentou que a pegada do novo projeto segue a linha da cine série “Crepúsculo”, os fã começaram a temer não só pela sexualidade dos personagens como pela qualidade das histórias, que para acontecer passaria a depender de tons eróticos obscuros.
Verdade ou exagero, este é um caso em que você compra se quiser, afinal, os dois personagens estão em vários títulos, cada um com sua interpretação do que seriam suas aventuras. Escolha seu tom preferido e siga em frente.
Já o Lobo…  Ah, o Lobo…
As imagens da nova versão do personagem foram divulgadas num dia e, já no dia seguinte, a roteirista da edição que o reintroduz nos Novos 52 tuitou que aquela não era a versão que apareceria na revista, o que nos leva a duas possibilidades: a editora está cometendo erros tolos devido ao Alzheimer ou simplesmente mudaram tudo devido à repercussão negativa.  Mais uma das muitas nestes últimos dois anos.
O massudo Lobo original e o atual Lobo do "Crepúsculo"
E afinal, qual Robert será o novo Lobo? Rob Zombie ou Robert Pattinson? Em breve descobriremos, mas não dá pra saber se gostaremos da resposta.
Mas e o bamb…digo, o Batman? Vamos combinar que foi à toa?
Adan West como Batman
Batman 66 foi um grande sucesso editorial e seu maior triunfo foi exatamente trazer de volta a versão mais criticada do personagem, vivida por um ator barrigudo. Se Adam West é incensado, o que faz Ben Affleck ser execrado? Como o Batman interpretado pelo diretor de “Argo” pode ser pior do que aquele que todos tentaram apagar décadas atrás? O ex-ator preferido de Kevin Smith recebeu até ameaças de morte sem que sequer tenhamos visto sua versão do personagem. Gente, o “Demolidor – O Homem Sem Medo” tem mais de uma década, o cara já ganhou um Oscar e até interpretou um Superman nos cinemas. E lamento informar: “Hollywoodland – Bastidores da Fama” não só é um bom filme como a interpretação dele agrada. Ele é um bom ator (um dos meus preferidos).
O mundo mudou, os títulos acompanharam e as editoras e estúdios estão testando conceitos que podem agradar ou não. Vivemos numa era declaradamente transmídia, algo que pode ofender alguns e agradar outros, principalmente devido às reinterpretações de personagens e de situações que vivem nas nossas lembranças ou formaram nosso caráter. Não é uma novidade, afinal, se os quadrinhos permanecessem sempre os mesmos nunca teriam chamado nossa atenção. A grande verdade é que pela primeira vez em muito tempo temos opções e podemos consumir outras versões dos personagens que nos agradem mais. Mais importante ainda é não criticar o que ainda não saiu. Nunca tire conclusões precipitadas.
Agora, se nada te agrada…  Que tal aproveitar as facilidades da modernidade e criar suas próprias histórias? Experimente. Pode ser divertido.
Ben Affleck, O Homem Sem Medo, o único a interpretar um herói Mavel e 2 heróis da DC no cinema

O mundo é gay (e você está nele)!

O mundo é gay

(e você está nele)!


De uns anos pra cá, os quadrinhos têm saído do armário. Personagens gays de diferentes importâncias surgiram, ao passo que outros – mais conhecidos do público – tiveram sua preferência sexual alterada para os tempos modernos. Só pra ilustrar, recentemente foi anunciado o (suposto) primeiro transexual dos quadrinhos (Alysia Yeoh, colega de quarto de Barbara Gordon, a Batgirl); o título do Superman escrito por Orson Scott Card foi cancelado devido ao ativismo de seu autor contra os direitos gays; a venda de um título foi bloqueada pela Comixology como resultado da questão GLBT; casamentos gays foram anunciados; e um Lanterna Verde saiu do armário depois de quase um século de virilidade.
Apesar de todas as reações contrárias ou a favor, olhando mais a fundo descobrimos que o mundo dos quadrinhos sempre foi gay, nós é que não percebíamos (ou não lembrávamos).
Embora seja um bom exemplo do espírito de sua época, o “Boom Gay” chama mais atenção pela quantidade do que pela originalidade. Afinal, apesar de ser mais uma tentativa das editoras de encaixar a diversidade do momento de forma extremamente chamativa – e por vezes desnecessariamente polêmica – em  suas páginas para vender mais gibis, não é nenhuma novidade. Sempre existiram personagens gays, a diferença é que em sua época, e apesar de terem gerado alguns comentários, todos foram inseridos dentro do  contexto da história e não como estratégia de Marketing.
O polêmico livro do psiquiatra Fredric Werthan
A grande verdade é que os gays sempre existiram nos quadrinhos. A própria Mulher Maravilha, criada numa ilha só de mulheres, é um bom exemplo disso. O plano da editora de revelar este detalhe caiu por terra com o surgimento do livro A Sedução do Inocente, deFredric Werthan, que, entre outros danos, acusou Batman e Robinde serem não só um casal gay mas também um caso de pedofilia. Com dois de seus mais importantes personagens queimados para sempre, os editores de quadrinhos foram forçados a ficar na retranca e amenizar seus temas para não “destruir mentes infantis inocentes” (uma das muitas acusações do livro). Em plena caça às bruxas dos anos 50, qualquer movimento contrário ao status quo da época teria assinado a sentença de morte de nossa mídia preferida.
A década de 1960 trouxe uma série de questionamentos e todos passaram a lutar pelo seu espaço. A Rebelião de Stonewall, que culminou na primeira parada pelos direitos GLBT da história, foi um importante passo para a mudança na forma como este grupo passou a ser visto pela sociedade. Não levou muito tempo para que criadores, gays ou não, começassem a testar personagens que revelariam sua sexualidade num momento propício. Nem todos autores tão famosos e ainda atuantes como Gail Simone e Bill Sienkiewicz, mas todos gostariam de se ver representados em sua mídia de escolha. E foi o que fizeram. A partir dos anos 70, fomos conhecendo personagens que, além de gays, ainda protagonizavam ou eram importantes dentro de algum título.  Estrela Polar, Flautista, Apolo e Meia Noite, a travesti Dagmar, da série Black Kiss, Hopey e Maggie, da série Love & Rockets, Batwoman, Maggie Sawyer e muitos outros, num processo criativo que começou nas editoras pequenas e migrou para as grandes.
Estraño, um dos grandes erros da abordagem gay nos quadrinhos

Até acertar, as grandes cometeram erros crassos, como o Estraño, criado em 1988 pela DC Comics numa tentativa estereotipada de incluir duas minorias na mesma história. Além de afetadíssimo, o personagem também era latino. Resultado: o personagem não emplacou e alguns leitores ainda perguntaram quando ele seria curado. Ele não só foi curado como devidamente apagado da continuidade.
Convém lembrar que os quadrinhos (até bem pouco tempo) sempre foram lidos por garotos, o que permite a existência de personagens lésbicas ou polissexuais, como as europeias Barbarela e Valentina, que viviam a liberação sexual dos anos 60. Gays masculinos, entretanto, não faziam parte das fantasias dos leitores, o que impedia a identificação imediata com o personagem.  Esse lapso foi corrigido um pouco mais tarde com a inserção de personagens que, apesar de sua sexualidade, são exemplos heroicos ou de anti-heróis que dialogavam com os questionamentos do leitor na época de sua criação. Apolo Meia-Noite, que não apenas se casaram como adotaram uma criança, ilustram bem como trabalhar dois personagens gays sem que nunca deixem de ser vistos como os personagens mais perigosos de seu universo.
Fora dos Super-heróis, é sempre bom citar o sensível álbum autobiográfico “Pedro and Me”, de Judd Winic, no qual o cartunista conta o que aprendeu durante a convivência com o amigo aidético. Mas estes grandes momentos ficaram restritos aos independentes, onde os autores sempre tiveram mais liberdade criativa. Também é bom citar que a turma da Tina, do Maurício de Souza, ganhou (pelo menos) um personagem homossexual e a ultra conservadora editora Archie Comics conseguiu o feito de ter sido a primeira editora a publicar um casamento gay.
“Pedro and Me” de Judd Winic
Em 2011, com o evento Novos 52, a DC, que sempre foi uma editora mais conservadora em seus títulos de linha, resolveu atualizar seus personagens para os novos leitores e, identificando que a modernidade havia chegado, decidiu que seria o momento perfeito para introduzir protagonistas GLBT em suas páginas.
Apesar de suas escolhas sexuais não interferirem em sua conduta moral, personagens como o novo Alan Scott chamaram atenção devido a sua nova sexualidade. O Lanterna Verde Gay foi um dos assuntos mais citados na mídia mundial, inclusive no Brasil, onde gerou duas curiosas polêmicas: além do erro cometido por vários programas que comentaram a situação apresentando o Lanterna Verde errado, nosso país, tido como extremamente liberal, foi o que menos aceitou a mudança.  Leitores brasileiros fizeram verdadeiras declarações de ódio ao novo status quo, o que chegou a ser citado até no site inglês Bleeding Cool, que passou a dar mais atenção a nosso país a partir do incidente.
Batgirl e Maggie Sawyer também agitaram as páginas da DC Comics
Iniciada a era dos Beijos Gays, da qualWolverine e Hercules também participaram, passamos para a fase dos casamentos. O primeiro deles, a resposta da Marvel ao “Boom Gay”, foi o do Estrela Polar com seu então namorado, nas páginas de um dos títulos dos X-Men. Esse matrimônio será seguido pelo de Maggie Sawyer e Batwoman e, numa terceira fase, iniciada em Batgirl 19, foi anunciado o primeiro personagem transgênero da era moderna.
O mundo é gay e os nossos personagens preferidos estão nele. Se isso vai durar ou se será só mais uma modinha, não se sabe. Por enquanto, o fator GLBT parece mais uma muleta polêmica para alavancar as vendas de determinados títulos do que uma declaração de respeito e igualdade. Mas a verdade é que já estava na hora de termos mais inclusão das HQs mainstrean, que quase morreram nos anos 1950 devido a xenofobia americana criada por pequenos grupos e seus representantes que temiam uma mudança social inevitável.
E no âmbito nacional, Maurício de Souza não fecha os olhos para a questão - vide a Turma da Tina

Mônica para todas as idades

Apesar da Turminha ser um dos maiores produtos de exportação brasileiros e praticamente os únicos quadrinhos a sustentar uma indústria que nem sempre anda com as próprias pernas, além de ter sido o primeiro emprego de muitos dos artistas que conhecemos hoje em dia, infelizmente depois de certa idade a gente fica com vergonha de ler; é de criancinha e tal…
Eu parei de ler aos 15 anos, quando me encantei pelos super-heróis. Histórias arrojadas, aventura incessante e o desenho… Ah, o desenho… Confesso que só peguei uma revista da Mônica depois de velho quando tentei ensinar português pra uma chinesa. E nem isso adiantou, pois ela arrastou meu Sin City. Ela gostava de temas mais adultos.
Cascão, Cebolinha, Mônica e Magali
Temas mais adultos‘ parece ser a motivação chave. Ler personagens que não evoluem enquanto envelhecemos e morremos é complicado. Turma da Mônica Jovem resolveu isso e ganhou os leitores que migram pro Mangá. Além disso, há indícios de uma versão adulta dos personagens vindo por aí.
Até lá, especiais da Série MSP 50Ouro da Casaou uma das Graphic Novels lançadas de 2012 pra cá mostraram que, sob outra ótica, os personagens deMaurício de Souza podem render histórias bem ousadas, emocionantes e experimentais.
Astronauta: Magnetar, de Danilo Beyruth, que descortinou uma viagem pela solidão do personagem; Turma da Mônica Laços, de Victor e Lu Caffagi, onde a turminha segue numa missão de resgate; e o recente Chico Bento: Pavor Espaciar, de Gustavo Duarte, que narra a visita de Aliens à Vila Abobrinha, são revistas que podem ser lidas por todas as idades, sem vergonha.
Vamos poder envelhecer e continuar lendo a turma da Mônica com a certeza de que não estaremos fazendo pela nostalgia, afinal, vamos ver sempre novidades da turminha para todas as idades.
Que tal aproveitar e abandonar o preconceito você também? Pode acabar se surpreendendo.
































Turma da Mônica Laços

Wolverine: Papai Carcaju

Papai Carcaju.

Recentemente, durante o arco “Cisma Mutante“,Wolverine rompeu relações com Ciclope e sua facção de X-men. O motivo? Usar adolescentes como soldados ia contra os princípios de um homem que é o melhor no que faz, mas o que faz não é tão bom assim.
Estranho? Não. Desde os anos 80 Logan tem demonstrado um paternalismo latente com as menininhas X. Primeiro foi Kitty Pryde, depois JubileuVampira Armadura, até culminar em Oya, sua mais recente protegida e motivo da cisão mutante.
Kitty Pride e Wolverine
Saber o tipo de mundo que aguarda alguém como ele pode ser um belo motivo para evitar que outros se tornem seus iguais. Foi o caso de Kitty, que se tornou uma assassina a mando de um de seus piores inimigos de então, o que forjou um elo entre os dois. A mais jovem X-men dos anos 80 acabou sendo treinada pelo canadense e anos mais tarde até se inspirou nele, usando suas garras como forma de defesa. No caso de Jubileu, bem… Ser salvo da morte por uma adolescente que vivia infiltrada no esconderijo de seus inimigos certamente forja elos. E diferente da adolescente anterior, a personalidade da pupila dos anos 90 contrastava totalmente com a sua. Com o visual criado a partir da Carrie Kelley de O Cavaleiro das Trevas, a adolescente criada durante a Batmania dos anos 90 fez bem as vezes de Robin do personagem.
Vampira, vilã reformada que na primeira aparição quase matou uma de suas amigas, foi um caso de antipatia gratuita desde o primeiro momento que se tornou um elo de respeito durante uma das primeiras missões juntos. Inclusive, o sentimento foi um dos principais fatores para o rejuvenescimento da mutante, uma vez que em suas primeiras aparições ela foi retratada como estando por volta de seus 40 e tantos anos.
Se esse lado paternal causa estranheza aos fãs do Wolverine sanguinário e sombrio, é bom lembrar que o Batman passou pelo mesmo tipo de humanização ao longo das décadas. Ligações com adolescentes são a melhor forma de aproximar qualquer personagem de seu leitor.
Wild Thing
Por outro lado, uma forma de manter laços ainda maiores é tornar o personagem um pai de verdade, seja biológico ou adotivo. Daí que a prole do Logan foi aumentando. Sua primeira extensão foi Amiko Kobayashi, órfã que perdeu os pais durante uma das missões de Wolverine com os X-men. Consternado, pediu para que sua amadaMariko criasse a menina como filha dos dois. Após a morte de Mariko, foi criada por Yukio, amante Ronin do personagem.
Mesmo um pai conturbado pode ter filhos naturais. Quando definiram que o personagem já havia passado dos cem anos e perambulado por todo o mundo, rebentos peludos pareceram inevitáveis.
A primeira tentativa foi a Wild Thing (sem tradução para o português), que seria a filha de Wolverine e de Elektra (casal improvável criado na virada do milênio) num futuro alternativo conhecido comoM2. Diferente do pai, ela possuía garras psionicas. O título da personagem não foi pra frente e ela foi passear no limbo das ideias mal usadas. A segunda foi a X-23, seu clone feminino que fez sucesso na animação “X-men Evolution” e não tardou a migrar para os quadrinhos. Apesar da ligação biológica, por um bom tempo o laço entre os dois foi o mesma das meninas anteriores: um mentor que protegia e cuidava para que a parceira não se perdesse do caminho.
Wolverine com Daken no colo
Se por um lado suas filhas seguem seus passos, seus filhos optam por outras estradas. Um bom exemplo é Daken, o Wolverine Sombrio. Criado para recuperar o conceito de Wolverine psicopata dos anos 70/80, o vilão tem vários assuntos inacabados com o próprio pai, a quem culpa pela morte da mãe. Apesar de todas as tentativas de apaziguar a situação, os dois seguiram caminhos distintos até finalmente se unirem contra Romulus, o arquiteto do infortúnio dos dois. Bissexual e amoral, o personagem transitou entre grupos clássicos, como o Quarteto Fantástico, e os nada recomendáveis, como a primeira versão dos Vingadores Sombrios. Romulus, o vilão que manipulou não apenas os dois como vários eventos da vida de Wolverine, também é um suposto filho do mutante.
E pra fechar a lista, temos os “Mongrels”, grupo de mercenários que se especializaram em infernizar a vida do canadense e foram mortos por ele, que pouco depois da chacina descobriu que todos eram seus filhos. Devastado, ele os enterrou nos túmulos de suas mães e tentou acertar as coisas com seus filhos ainda vivos, quando descobriu que Daken estava morrendo e teve de enfrentar mais um de seus rebentos problemáticos. Nova Iorque e sua população de super-heróis foram salvas da fúria do Wolverine Sombrio; o original, entretanto, saiu com diversas cicatrizes em sua alma.
Não é fácil ser pai quando você é o melhor no que faz, mas o que faz não é bom. Mesmo assim ele tem tentado. Nem sempre com sucesso, mas continua sendo uma figura paterna em seus tempos livres.

Wolverine: Made In Japan

Made In Japan.

A ascensão de Logan se deu nos anos 80, momento propício para este tipo de personagem.
O ponto de partida editorial foi a minissérie “Wolverine“, escrita porChris Claremont e desenhada por Frank Miller, cujo arco marcava o retorno do personagem ao Japão para tirar satisfações com o pai deMariko Yashida, que a impedia de responder suas cartas e telefonemas.
Chegando na terra do sol nascente, foi logo atrás do pai de sua amada. Para se certificar de que não perderia a luta, Shingen Yashida, pai de Mariko e líder do clã homônimo, convocou sua assassina para envenenar o canadense, que foi humilhado numa luta com espadas de madeira. Derrotado e arrasado, o Carcaju jurou vingança e após uma série de entraves, não só eliminou o vilão da terra dos vivos como decidiu que permaneceria no Japão para recuperar a honra do Clã de sua amada.
Convite de casamento de Wolverine e Mariko
Convidados para o casamento, os X-men foram dar suas congratulações ao amigo e terminaram implicados numa história cheia de intrigas políticas envolvendo os vários pretendentes ao posto de mestre do Clã Yashida, entre eles o Samurai de Prata, que a partir desta história passaria a participar da mitologia do personagem. Foi nessa aventura queTempestade fez seu famoso corte punk, ressuscitado recentemente nos quadrinhos.  Também foi nessa história que o caso entre ela eYukio, a Ronin que envenenou Wolverine na minissérie homônima, é sugerido.
Para a infelicidade de Logan, Jason Wingarde, o vilão também conhecido como Mestre Mental, entrou no páreo para se vingar dos filhos do átomo e controlou sua amada, que não só desfez o casamento como o rejeitou. O casamento foi cancelado e continuou suspenso mesmo após a derrota do vilão. Os dois retornaram para suas vidas, mas com o mesmo carinho de antes, o que fez comque Logan sempre voltasse para ela, muitas vezes para salvar seu clã de algum envolvimento sombrio. E acredite, foram tantos reencontros que ela morreu nas mãos do canadense anos depois.
Numa outra viagem, ele precisou impedir que a X-men adolescente Kitty Pryde fosse controlada pelo ninja Ogun, um de seus antigos mestres. Desconfiada das novas relações comerciais de seu pai, Carmo Pryde, Kitty pede ao Professor Xavier para investigar as conversas entre Mr. Pryde e seu novo chefe japonês. Para seu desespero, o que parecia ser um acerto de negócios terminou sendo uma grande complicação com os Yakuza, a máfia japonesa, que comprou o banco no qual Carmo trabalhava para lavar dinheiro. Quando ele foi sequestrado e enviado para o país do Kabuki, ela decidiu salvá-lo; e como antes de dar certo tudo piora muito, a mutante passou por vários percalços, tendo até que roubar um caixa eletrônico e dormir na rua. Quando, por fim, ligou para a mansão X para pedir ajuda, a moça ficou sem jeito de falar de seus problemas com o irascível baixinho peludo com quem nunca teve a mínima intimidade. Entretanto, é justamente ele que vai seu resgate.
Wolverine e Samurai de Prata por Paul Smith
Após descobrir o problema com o pai da menina e salvá-lo de seu sequestrador, Logan sai em busca da colega de equipe, que acabou enfrentando sem saber que a ninja cuja habilidade se equiparava à sua era na verdade Kitty. Quando a máscara da oponente caiu e foi descoberto que ela era na verdade a jovem X-men submetida a uma lavagem cerebral, o experiente herói fez de tudo para trazer sua personalidade de volta à superfície. Auxiliado por Yukio, Wolverine salvou o pai da menina e fez com que ela confrontasse Ogun, seu antigo mestre. Ao ter a chance de executar seu algoz, Kitty não conseguiu, tarefa esta que coube ao mutante com as garras de adamantium.
Essa história serviu para estabelecer o status heroico de Kitty, que passou a assumir a alcunha de Lince Negra (Shadowcat no original). Em seu arco, Wolverine e a moça estreitaram laços, e a amizade e o respeito que um passou a ter pelo outro perduraram ao longo dos anos, o que fez de Kitty a primeira adolescente parceira de Wolverine.
Ao longo dos anos, o Japão foi o tema de várias histórias de Wolverine, mas poucas histórias tiveram o peso destas, que alteraram o status quo do personagem.

Artes Inéditas de Histórias da Bíblia

Apesar de ter tido uma edição publicada, a proposta da série Histórias da Bíblia era narrar todas as histórias contidas neste que é um dos ...